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herege

10 mar

E hoje encontrei um grupo no qual me encaixo: o dos HEREGES. Estava lendo o livro “Salvos da Perfeição”, do Elienai Cabral Jr., e me deparei com uma definição um tanto inusitada:

“O herege é um desritmado. Todos dançam na mística do que é instituído, em seu ritmo único. O herege por razões várias sai do ritmo. Viveu uma crise, divagou em um insight, sentiu-se entediado e insatisfeito, intuiu variações possíveis. Quaisquer coisas que quebrem a sequência e a unanimidade podem  fazê-lo perceber o diferente. Ao sair do ritmo descobre uma nova possibilidade de dançar no mesmo salão. Descobre o improviso e o contratempo. Percebe que é possível, faz sentido e é bom ser diferente.”

(Elienai Cabral Jr., no livro  Salvos da Perfeição na página 126. Ed. Ultimato)

Ao olhar pro que já foi, com essa definição em mente, me descubro uma desritmada desde sempre, e talvez por isso, por não dançar conforme a música, uma indivídua de pouca voz, de pouca repercussão, desde cedo. Conta minha mãe que em meus tempos de jardim da infância, eu preferia conversar com as professoras os assuntos dos adultos, a brincar com as crianças no parquinho. Desde cedo já queria carregar os pesos do mundo nas costas e alardear uma revolução, mudar a raíz das coisas.  O bom é que, mesmo com o passar do tempo, certas aspirações não mudam. Hoje sei que não posso mudar o mundo, mas sei que posso fazer alguma coisa por ele, e principal, pelas pessoas que nele habitam.

Cada vez em que olho pras instituições bem definidas ao meu redor, me descubro ainda mais distoante, hoje sei, herege. Já perdi a conta do tanto de vezes em que fui chamada de “menina do contra”, tá bom que em parte a culpa é da típica fase de ir contra tudo e todos da adolescência, mas tem situações que persistem. E é estranho. É estranho me ver defendendo a galera amiga de tantas outras religiões, contra a absolutização cristã que só aceita padrões iguais aos seus e exclui tudo o que é diferente como se fosse de outro mundo. É estranho me ver defendendo os direitos da mulher como ser humano, e ao mesmo tempo defendendo as muçulmanas que escolhem o julgo da religião machista por simplesmente acreditarem naquilo de corpo e alma. É estranho. É estranho me ver criticando a instituição religiosa no estado em que ela se encontra, com toda sua parafernália ortod(t)óxica, e ao mesmo tempo ver que eu estou me unindo a uma dessas. É estranho me ver criticando e saindo desse mundo vestibulando de cursinhos e suas estruturas que tornam o vestibulando refém emocional de seus professores, piadas e tiranias, sendo que, eu mesma, fui refém e defensora deles por 2 anos.

A lista poderia continuar, mas não pretendo continuar com ela. Permaneço apenas em minha posição de herege, disritimada. Divagando. Sendo levada por epifanias, pequenos vistumbres do Deus que de tanto amar nos garante a liberdade de escolha. Deus esse que por tanto amar, se fez humano para resgatar nossa humanidade. Acho que deve ser essa minha missão. Ser herege deve ser mesmo uma tentativa de resgatar o ser humano para viver o que é humano. Não sei se chegarei a queimar na fogueira, como alguns o foram tempos atrás, ou crucificada como Jesus o foi. Apenas seguirei meu caminho de incompreensão.

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Sobre beleza e dor.

19 fev

Sobre beleza e dor

Rigorosamente a cada dia cresce a minha convicção de que, ao contrário do que parece sugerir nossa intuição, a beleza não é incompatível com a dor. Todas as narrativas ensinam, e todas as narrativas parecem existir para demonstrar, que uma coisa não existe sem a outra. A minha história é consistente testemunha disso, e por certo a de todos.

Concluo que, havendo um céu, será inevitavelmente belo, e não poderá portanto prescindir de alguma parcela de dor. O final feliz não deve abrir mão de todas as alegrias possíveis, especialmente das maiores, em que entranham-se medidas irreconhecíveis, inextrincáveis e imponderáveis de uma coisa e outra. A bem-aventurança não será completa sem o fio da navalha, sem a cicatriz; a beleza não será completa sem a dura lembrança e a aterrorizante possibilidade da dor.

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O autor do texto acima é Paulo Brabo. Estou caminhando pra leitura das últimas páginas de seu livro, “A Bacia das Almas”.  Só posso dizer que cada página tem sido surpreendente e de uma identificação sem precedentes. O site/blog dele é também o Bacia das almas, onde estão todos os artigos, escritos, narrações, memórias e etc, do livro e um tanto mais. É uma das leituras que indico sem restrições.